Viana do Castelo

(Constituições de 90)

Um sorriso de Santa Teresinha

 

Pode dizer-se que o Carmlo de Viana do Castelo foi um sorriso de Santa Teresinha dirigido a Portugal.
Após uma conversa tida certa tarde em casa da Condessa da Carreira, em Viana do Castelo, partiu para Alba de Tornes, o convite de que as Carmelitas exiladas pela república e refugiadas por esse convento espanhol regressassem à Pátria, pois «a situação tinha melhorado, e seriam muito bem recebidas, como irmãs de Santa Teresinha».

A sua Prioresa – a quem os pais, Joaquim Rodrigues Magalhães e Maria Angelina Leite Velho, profeticamente tinha imposto o nome de Constança – não tinha deixado que dezassete anos de exílio acumulassem cinzas sobre a sua confiança de ver realizado o pensamento do Papa S. Pio X, de que «os religiosos haviam de voltar a Portugal».

O convite de regresso foi dirigido à antiga Comunidade de Aveiro, pela irmã Maria Inês do Menino Jesus, sobrinha da «Freirinha Santa de Viana» aquém o povo ainda hoje venera com a maior devoção, pelos incontáveis benefícios que lhe atribui. A irmã Inês permaneceu no convento das Carmelitas até que, a 15 de Outubro de 1900, ele foi encerrado por aquém havia tempos desejava dar-lhe outro destino. A senhora Dª Antónia de Jesus Zanith foi uma das carmelitas que tiveram a dor de abandonar o convento quando ele foi destinado a Asilo de meninas órfãs (hoje lar de Santa Teresa), mas viria a ter a imensa alegria de que duas primas suas viessem a professar como Carmelitas, em Viana e no Porto.

A Madre Constança depressa comprovou que não é em vão que se confia em Santa Teresinha: as noviças que ela atraiu ao seu Carmelo depressa ultrapassaram o número das oito fundadoras.
A sua primeira conquista foi uma alegre transmontana em cujo horizonte apenas sorriam as cavalgadas através das estradas de Cerva e animado convívio com seus números irmãozinhos e amigos.

Mas a 17 de Maio de 1925 participou, com as demais irmãs Franciscanas de Guimarães, nas cerimónias comemorativas da Canonização da Santa de Lisieux… e já só aspirou a viver o que tão entusiasticamente tinha cantado:
 
«Quero imitar-te Santa querida
passar a vida na solidão
junto ao sacrário bem escondida,
eis o que alegra o meu coração!»

 

 

A partir para o seu querido convento, em Viana do Castelo, assim consolava a Família, dorida e saudosa: «não chorem! Agradeçam a Deus ter-me dado esta vocação». E a 2 de Fevereiro de 1930 entrou no Carmelo, para durante 82 anos aí ser a «Guarda de Honra» da Eucaristia.

Foi este o primeiro sorriso dirigido às jovens Portuguesas – que havia tanto tempo suspiravam pela felicidade de se entregarem a Deus e à sua obra redentora, na solidão do claustro – pela Carmelitas normanda.

 

 

Na impossibilidade de descrever a maravilhosa história de todas elas, recordaremos a de uma descendente da Rainha Santa Isabel. Foi seu ideal tornar-se a consoladora do Coração de Jesus e sua colaborado na salvação do mundo.

Estreita afinidade a ligava a Santa Teresinha, que conhecia através de seus escritos, mandados vir de França (pois ainda não circulavam em Portugal). Já se tinha oferecido ao Amor Misericordioso e em Viseu era apontada como «um Carmelita dos pés à Cabeça». Mas detinha-a a perspectiva de ter que abandonar os seus pais. Como filha única, seria o seu amparo na velhice…
Abriu um dia o Evangelho e leu a frase categórica: «deixa que os mortos enterrem os seus mortos!». Confiou, pois, os pais Àquele que a chamava (e que os levaria tão apressadamente deste mundo que não chegaram a precisar dos cuidados de sua querida Filha) e partiu para este Carmelo, onde realizou plenamente o seu ideal. Quis conservar-se sempre pequenina e humilde, e aprender do Coração Imaculado de Maria cumprir a vontade Santíssima de Deus. Assim quis ser Sua consoladora, imolando-se pela santificação dos consagrados e salvação das almas.

 

 

Anos mais tarde, no intervalo das aulas que frequentava como bolseira, uma universitária foi visitar o Carmelo de Lisieux. Subiu depois à torre Eiffel e impressionou-a o minúsculo tamanho das pessoas e maravilhas de Paris, vistas um pouco de mais alto.

O espírito missionário de Santa Teresinha entrou então em acção e sugeriu-lhe o que havia de fazer pela multidão dos que arriscam a felicidade eterna, por se prenderem às minúsculas coisas deste mundo: descendo da Torre Eiffel veio para junto da Ponte Eiffel e trocando tudo o resto por Deus, quis ser ponte por onde muitos a Ele pudessem chegar.

Assim se foi povoando como de brancas pombas (Santa Teresa de Ávila chamava «pombaizinhos da virgem» aos seus conventos) , o Carmelo de Viana do Castelo. Ele foi, afinal, o segundo sorriso de Santa Teresinha!

Na «Quinta das Baterias», acharam as irmãs um pequeno paraíso e, nos dizeres dos médicos, um verdadeiro sanatório. Perfumado pelas emanações balsâmicas dos Verde Monte de Santa Luzia e pela iodada brisa do mar, ele evoca o Monte Carmelo da Palestina.

Por entre flores de toda a espécie, latadas e árvores de fruto, esvoaçam inúmeros cantores alados: pombas, rolas, popas, canários, melros, pintaroxos e plácidas gaivotas. Cortando o azul com suas asas brancas «gostam» de pousar nas duas cruzes, junto ao campanário, parecendo também deslumbradas com o panorama que daí se desfruta. Nesse pequeno éden também surgem araras e periquitos, bem como representantes da fauna Portuguesa: ouriços cacheiros, esquilos, rãs, etc.
Setenta e sete anos após o Carmelo de Santa Teresinha, quis ela própria, vir sorrir às suas Irmãs e à cidade que tão carinhosamente as acolheu. A passagem das suas relíquias (23 a 25 de Novembro de 2005) foi como uma chuva de rosas! Houve uma multidão que a acompanhou levando o comercio a encerrar e muitos «filhos pródigos» a entrar de nova nas igrejas. No mosteiro houve a cura de uma irmã que sofria de asma e entre os Vianenses um indescritível de devoção e de carinho para com as Carmelitas de quem providenciam o sustento.
Oiçamo-las no colorido grupo que pouco depois lhes «invadiu» o locutório:
 
«Afinai as vozes
com muita alegria
esta é a fantasia,
é a hora de brincar.
 
Este grupo de janeiras
Vem cantar aqui de novo,
Desejar para todas vós
Bom e feliz anos novo.
Vem cantar para todos vós
Partilhar sua alegria.
O brilho do vosso olhar
tem um toque de magia.
 
Nós cantamos por amor
Para nós isto é missão.
Cantamos às Carmelitas
Que vivem em clausura
E não sentem amargura
Pois tem Jesus com elas.
Com os olhos em Jesus,
Em oração permanente
Sofrem com Ele na Cruz
E rezam por toda a gente.
 
Carmelitas,
As Irmãs Religiosas
Tão bonitas, não vaidosas,
Que vivem a oração.
Carmelitas,
alegres e bem dispostas
em Jesus têm respostas
ao pedir por cada irmão.
 
Afinai as vozes com muita alegria;
É chegada a hora de, com muita fantasia,
Nos pormos a cantar!».
 
Quando se perderam no espaço as últimas notas deste concerto folclórico e fraterno; quando ria Lima serpenteando a caminho do mar, unia a sua voz à das ondas toucadas de espuma, e à do vento embalando o arvoredo da montanha; quando as aves emudeceram no aconchego dos ninhos, as Carmelitas prosseguiram na sua missão de intérpretes do louvor ecológico que a natureza aí tão exuberantemente ergue ao Criador.

Simbolicamente separadas do burburinho citadino, pelas grades que lhes asseguram um espaço de silêncio e paz, rezam em nome dos irmãos a liturgia das horas da sua vida.

E repetem, com Santa Teresinha:
 
Viver de amor é enxugar-te a face
E alcançar ao pecador perdão.
Que ele regresse ó Deus, à tua graça
Bendiga enfim Teu Nome e Coração…
Em mim ressoa o seu grito blasfemo!
Para o calar repito com fervor:
«Nome sagrado, eu te amo, adoro e temo,
Vivo de amor!»
 
Viver de amor é sempre navegar,
Nos corações semeando gozo e calma.
Piloto amado, o amor me faz singrar,
Pois dos irmãos te vejo eu na alma.
A caridade só me faz de estrela.
Ao seu clarão deslizo sem temor!
Tenho o meu lema escrito em minha vela:
Viver de amor.»